do dia em que as minúsculas não quiseram crescer
queria saber escrever contos.
simples.
só isso.
repito essa frase quase diariamente.
hoje não foi diferente. sentei em frente à tela, olhei para o teclado e pensei:
"queria saber escrever contos"
foi quando eu olhei para frente e me vi.
sim. vi a mim mesma, do outro lado da sala. cabelos um pouco mais curtos. deveria ser agosto, ou um pouco antes. definitivamente inverno, como diriam minhas roupas. mas o engraçado foi que me vi. e essa pessoa, a quem observava com a mais profunda interrogação, não se parecia com quem sou agora. estava lá. quieta. sentada num canto da sala rabiscando espirais num caderninho sem pauta. não fosse o ruído incessante da caneta azul na folha de papel, diria que buscava o silêncio absoluto, tentando se desfazer da dor que sentia.
sim. vi a mim mesma, do outro lado da sala. respirava num ritmo constante, mas, de quando em vez, inspirava com um pouco mais intensidade, como quem busca suspiros. sentia o ar entrando... e nada. faltava pouco para encher de vez os pulmões. cheios mesmo, daquele jeito que só acontece quando se sente o gosto de uma lembrança. e não vinha nada. nem segundos, nem saudades, nem mentiras ou verdades. inspirava tentando um passado e expirava soltando a falta. ficaria o dia inteiro assim. esperando. buscando dentro o que desejava viver fora.
sim. vi a mim mesma, do outro lado da sala. e essa pessoa de cabelos curtos e respiração ritimada também me viu. olhava para mim como quem busca saber o que está por vir. e quanto a mim, buscava nela alguma dor, uma lágrima ou um vazio qualquer. algum motivo para escrever. alguma história para contar. ela, então, desviou o olhar, fechou o caderno e se despediu com um sorriso. foi quando eu despertei, ainda sem saber escrever contos, mas com a certeza de que a personagem estará sempre alí, do outro lado da sala. respirando fundo para que eu possa suspirar.
Escrito por Meu outro eu ?s 14h58
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