e foi ali que, enquanto sorria na chuva, escutando Chico bem baixinho, arrancando páginas, amassando rascunhos, jogando fora dores e mágoas e quases e nadas, meu outro eu sussurrou no meu ouvido:
quando eu crescer, quero ser poeta.
Escrito por Meu outro eu ?s 15h16
[ ]
|
...das brincadeiras que a vida faz...
certo dia um samba me levou lá pra cima, bem no alto. e me deu o vento e batucadas e violadas e o nascer do sol - que lá de cima, não é qualquer um. esse mesmo vento me trouxe uma clave e um par de olhos verdes. e trouxe de volta a música, que há tempos se escondia de mim - ou eu dela, não tenho certeza.
o sol do nascer se pôs e foi aí que o verde alaranjou. então a música se fez certeza e hoje em dia não se esconde mais. foi quando me contaram que a clave enviolou e agora (en)canta pequenininha lá de cima. e o vento... bom, o vento virou samba. e andam dizendo que, de quando em vez, ele batuca por aí.
Escrito por Meu outro eu ?s 21h16
[ ]
|
...do dia em que a saudade me pegou de jeito...
"Quando você veio ao mundo, sorriu ao mundo, se apresentou ao mundo eu tinha onze anos, 37 sonhos, 42 bolinhas de gude e um álbum incompleto de figurinhas dos craques do campeonato brasileiro. Quando você desceu ao mundo, caiu no mundo, floresceu o mundo, eu pensava em ser jogador de futebol, cantor de rock, cientista maluco, pessoa feliz ou andarilho, não sei bem em que ordem nem o que eu queria ser primeiro. Quando você chorou para o mundo eu não sabia cantar, nem sabia dançar, nem sabia que um dia ia ter vontade de cantar dançando cada vez que olhasse seus olhos e sentisse seu cheiro e tocasse sua pele. Quando você chegou e enfeitou o mundo, perfumou o mundo, mudou o mundo, eu não pensava em flores nem enxergava direito as cores, nem esperava amores nem muito menos sentir dores, porque dor eu só aprendi a sentir no dia que você, um bom tempo depois que chegou ao mundo e haja tempo nisso que quase não se acabava!, se chegou a mim, e me fez perceber que dor é aquela sensação desagradável ou penosa causada por um estado anômalo do organismo ou parte dele, especialmente quando você me dá tchau, até logo, byebye, e piorada quando isso tudo não vem acompanhado de um beijo e um volto logo. Quando você piscou pro mundo ninguém me disse, ninguém anunciou, não deu na tv nem no jornal nem no rádio e eu não vou mentir e dizer que eu soube assim mesmo, porque essas coisas a gente não sabe de outro jeito que não seja depois de muito sofrimento e de desacreditar que um dia vai acontecer. Mas, no fim de tudo, isso nada importa, a não ser que você veio e sorriu e se apresentou e desceu e caiu e floresceu e chorou e enfeitou e perfumou e mudou e piscou pro mundo e pra mim, e dentro de mim alguma coisa fez ploc e outra fez clic e outra fez um barulho infernal e explodiu, e eu senti na boca um gosto de framboesa e nos pés um gosto de nuvem de chuva e no peito um gosto de o-que-é-isso-meu-deus-do-céu-minha-nossa-senhora-do-perpétuo-socorro-ave-maria-cheia-de-graça-valha-me-deus-todo-poderoso-acuda-jesus-nosso-senhor. Pois, agora, vê se cuida de mim do meu sorriso do meu olhar do meu peito do meu sonho do meu mundo do meu dia dos meus/nossos filhos do meu pé-de-atleta de meu tudo de meu sempre. Porque, quando você apareceu, assim, do nada, depois de ter surgido de dentro de um planeta chamado ¿longe¿, se ferrou, madame, porque ganhou um eu inteirinho pra você, embalado pra presente e sem direito a troca nem devolução nem reclamação porque o guichê já está fechado, o dia já foi ontem e a noite promete uma nova revelação dos cientistas loucos da Colômbia em relação à gripe que nos assola."
(a. gonçalves - 'de quando o amor me entortou')
Escrito por Meu outro eu ?s 14h47
[ ]
|